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Saúde Mental | Vida de Solteira | Filmes | Livros | Memes | Já disse saúde mental?

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22 de Abril, 2019

O que as pessoas não percebem sobre Personalidade Borderline

D.M.

Há uns dias decidi contar à minha melhor amiga que tenho personalidade borderline (TPB). Para quem não sabe o que é, vejam o meu post sobre isso e este site em português. De todas as reacções e cenários que imaginei na minha cabeça, aquilo que aconteceu foi completamente inesperado. Incompreensão, não-aceitação, não-validação e julgamento através da bitola de sofrimento dela. Dor é dor. Sofrimento é sofrimento. As comparações não fazem sentido, não trazem nada de positivo e são injustas. Não andamos aqui a competir para ver quem é que passou por situações piores, quem é que sofreu mais, ou outras coisas do género. Devíamos estar uns para os outros, para termos empatia e compaixão pela dor do outro e isso não aconteceu comigo. Por isso, inspirada em vários artigos cujos links deixarei no final deste post, aqui ficam algumas coisas que as pessoas não percebem sobre aqueles que, como eu, sofrem com TPB.

 

  • Não fui à internet ler, nem acordei um dia a dizer que sou Borderline - Eu tenho acompanhamento terapêutico, tomo medicação e a minha terapeuta, que me conhece desde a adolescência, fez um diagnóstico. Ela também não foi ler umas coisas à net e lembrou-se disto num dia. Pôr em causa o meu diagnóstico, o meu processo terapêutico e a minha terapeuta só me vai fazer fechar-me mais sobre mim própria. E tal como acontece comigo, acontece com outros, de certeza.

 

  • Não sou uma vítma, nem me estou a armar numa - Não estou a arranjar desculpas, não me estou a armar em vítima, não estou a tentar chamar a atenção, nem quero que tenham pena de mim. Dizerem-me coisas como "e agora, vais deixar que isso te condicione?" cai em saco roto porque o TPB não é algo que eu tenha escolhido ou que tenha um botão de ligar/desligar. Condiciona e sempre condicionou a minha vida, mesmo antes de ter um diagnóstico. Há momentos melhores, há momentos piores e eu tenho de viver com isso, quer queira quer não.

 

  • Sou mais sensível e todas as minhas emoções são mais intensas: para o bem ou para o mal. Mas não sou dramática - Basta dizerem-me que não concordam, basta não me responderem naquela altura à mensagem que mandei, basta dizerem-me algo mesmo em tom de brincadeira, que eu vou ter vontade de cagar de alto para essa pessoa e não a querer ver mais. Uma piada, um olhar, um gesto, uma reacção que pode ser perfeitamente normal, eu vou sempre tomá-la como pessoal, vou extrapolar as suas proporções e vou sentir-me a maior merda do mundo. Não estou a ser dramática, não me estou a armar em coitada. É como se as minhas emoções estivessem desreguladas. É assim, sempre foi, e faz parte desta condição. Por isso faço terapia.

 

  • Às vezes sinto tudo ao mesmo tempo, às vezes não sinto nada, às vezes sinto várias coisas no decorrer de algumas horas - mudanças repentinas de humor, ou "mood swings". Vocês não têm de lidar com isso, mas eu tenho. Dêem-me um desconto ou ponham-se a milhas. Ou abracem-me. Para vos dar um exemplo muito concreto: no dia em que contei isto à minha amiga e ela menosprezou tudo o que lhe disse, a seguir senti-me ansiosa, triste, depois eufórica, fui comprar uma câmara fotográfica nova, depois fiquei deprimida, senti-me culpada, abandonada, cansada, cheguei a casa e vi A Guerra dos Tronos, senti-me como se nada tivesse acontecido e no fim fui dormir a sentir como se tivesse sido atropelada por um comboio. Relacionado com isto, há uma coisa chamada disassociação. É como se eu estivesse de fora a ver as coisas acontecer, como se não estivesse bem cá, como se estivesse fora da realidade. Nessas alturas tenho de fazer um esforço extra e consciente para me manter com os pés assentes na terra, para parecer alguém que vive neste mundo e que não se está a desligar, tanto a nível físico, como emocional e mental.

 

  • Passo muito rapidamente de "adoro-te, és a melhor pessoa da minha vida" para "não posso olhar para a tua cara, desaparece-me da frente" - E a maior parte das vezes as pessoas nem percebem, porque isto tudo se passa dentro de mim e tenho de resolver comigo mesma. Aprendi a não ser mal-educada, a não fazer mal aos outros e a manter este tipo de coisas para mim mesma, portanto a outra pessoa só se aperceberá disso no momento em que eu viro costas e vou-me embora, quando páro de tentar porque já não tenho forças. Paciência e compaixão é o que se pede, embora saiba que não é fácil. E tenho tendência para pôr as culpas todas em mim, claro, e a espiral descendente começa e pronto, tá tudo estragado. Quero mudar de vida, de emprego, de amigos, de sítio, de tudo.

 

  • Eu tenho noção dos meus defeitos, das minhas falhas - Não preciso que me lembrem disso porque eu sou a minha maior crítica. E isto facilmente se torna em paranóia, em sentimentos de rejeição, de inutilidade e até de auto-destruição. Estou sempre em alerta em relação ao que faço e às reacções dos outros sobre aquilo que faço. Posso parecer egocêntrica, mas eu sei que o mundo não gira à minha volta. Mas o TPB faz com que pareça que sim, e nunca é para as coisas boas, é sempre para as coisas más. O TPB não é algo comportamental, mas sim emocional e a maior parte das vezes sentimo-nos incompreendidos e sozinhos, isolados.

 

  • Também sou muito mais do que isto -  o TPB condiciona a minha vida, mas eu também sou uma pessoa para além disso tudo que merece ser amada, respeitada e querida. Sou uma excelente amiga, sou boa ouvinte, inteligente, que gosta de conversas profundas e sentidas, que não tem paciência para andar a dizer mal dos outros, criativa, que me atiro de cabeça quando gosto de alguém, que gosta de cuidar e ajudar os outros, que só não faço algo por outra pessoa se não puder. 

 

Todos lutamos batalhas dentro de nós sobre as quais as outras pessoas não sabem nada. Sejam gentis com todos.

 

Inspirações para este artigo:

What people don't understand about those with Borderline Personality Disorder

What do most people NOT understand about Borderline Personality Disorder

People must make more of an effort to understand Borderline Personality Disorder

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